Discurso proferido por Marcus São Thiago, Secretário Geral do Instituto Luiz Carlos Prestes (ILCP) em 07/03/2010, por ocasião da homenagem pela passagem dos 20 anos do falecimento de Prestes.
Em 7 de março de 1990, desaparecia da vida cotidiana política do Brasil, o inesquecível Senador Luiz Carlos Prestes, nosso Cavaleiro da Esperança, na homenagem de Jorge Amado, sem dúvida um ícone revolucionário da América Latina e do Mundo. Sua efetiva atuação histórica começou na década de 20, com a Coluna Prestes – o momento culminante do tenentismo – que reuniu um exército guerrilheiro de aproximadamente 1.500 homens e mulheres, comandados por uma dúzia de oficiais do Exército e da Força Pública de São Paulo, entre os quais se destacava Prestes. A Coluna percorreu 25.000 quilômetros, através de 13 estados do Brasil, derrotando 18 generais governistas, sem jamais ter sido desbaratada, apesar do enorme poderio bélico mobilizado contra ela. Inspirados nos ideais de "representação e justiça", os "tenentes" batiam-se por conquistas como o voto secreto e pela moralização dos costumes políticos, corrompidos pelo domínio oligárquico em vigor durante a República Velha O assassinato da companheira de Prestes, Olga Benário, resultado de uma perseguição imposta pelo governo de Getúlio Vargas, que a entregou, com respaldo do Supremo Tribunal Federal, à Alemanha Nazista; as prisões; a clandestinidade; os exílios; a perseguição de vários governos ao Partido Comunista Brasileiro, do qual foi secretário geral por muitos anos - nada disso abalou sua convicção de dedicar sua vida à causa de um mundo melhor para todos. Prestes nos falava que guardava do testemunho de vida de Olga "a lição de que o ser humano resiste a qualquer provação com dignidade, quando a sua luta é pela justiça e liberdade". Prestes lutou uma vida inteira em prol do ser humano. Nunca se rendeu ao capital. Constituiu-se num exemplo de conduta reta na vida pública. Foi eleito senador, após 10 anos de prisão impostos pelo governo Vargas, e ajudou a elaborar a Constituinte de 1946, uma carta magna avançada para a época, graças à atuação e às propostas aprovadas pela bancada de deputados do PCB, como o direito de greve. No período do golpe militar de 64, ainda secretário geral do partido, exilou-se em Moscou, por determinação do PCB, pois era o primeiro da lista de perseguições políticas do regime de exceção, que cassou o mandato do presidente João Goulart, de muitos políticos e, principalmente, de militantes de esquerda no país. Na sua volta do exílio, em outubro de 1979, o aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, foi tomado por uma multidão de 10.000 pessoas, principalmente de correligionários, que queriam ver e ouvir uma das maiores lideranças políticas da América Latina no século passado. O "velho", como era carinhosamente chamado nesta época por nós que militávamos com ele, discursou, de improviso, do teto de um automóvel e lembrou de citar, um por um, todos os membros do comitê central do PCB, "desaparecidos" pela ditadura que estava no fim. Por muitos anos minha geração e outras não puderam estudar e conhecer melhor a história do Cavaleiro da Esperança, devido aos anos de arbítrio e restrição dos direitos civis, impostos pelos autoritários de plantão em vários períodos do século 20 no país, fantoches dos interesses imperialistas, que enxergavam e ainda enxergam em Prestes uma ameaça constante à manutenção de um sistema baseado na exploração do homem pelo homem. A perseguição implacável exercida pelos representantes do capital, durante toda a sua vida, não foi suficiente para fazer calar em Prestes suas convicções socialistas, nem arrefecer seu ímpeto constante no combate ao capitalismo selvagem, que tanta desigualdade, miséria e exclusão social provoca no mundo. Por vezes surgiam divergências entre Prestes e companheiros de lutas quanto às táticas para combater o capitalismo. Nas discussões e embates travados só não abria mão de seus princípios. Não havia possibilidade de conciliar com o inconciliável. Por vezes, esta postura o deixou isolado politicamente. Não importava: seu maior compromisso era com o povo e com as lutas travadas para a sua efetiva libertação e avanços. Sua maior virtude foi lutar e se entregar pelo que acreditava ser responsabilidade de todos: um mundo melhor. PATRIOTA, COMUNISTA E REVOLUCIONÁRIO, Prestes deixou um exemplo de dedicação integral ao povo brasileiro e à causa internacionalista do socialismo. Neste momento em especial, a classe política de nosso país deveria se mirar na sua conduta. Prestes, apesar de toda a sua liderança e importância histórica, faleceu sem possuir bens e sobrevivia apenas com a colaboração de alguns sinceros e dedicados companheiros de luta e ideais. Inclusive chegou a recusar ofertas e possibilidades legais de pensões e indenizações oferecidas pelo governo como reparação ao que passou nas mãos de seus algozes. A fim de preservar o seu legado e acervo documental histórico, um grupo de companheiros e correligionários, capitaneados por Anita Prestes, fundou o INSTITUTO LUIZ CARLOS PRESTES, no Rio de Janeiro. As finalidades e atividades do ILCP pretendem envolver, fundamentalmente, a preservação documental e do acervo relacionado às vidas de Luiz Carlos Prestes e Olga Benário Prestes, além da realização, no futuro, de atividades educacionais que visem promover o legado de Prestes junto às novas gerações e a inclusão social, através da implantação de projetos e programas. Além disso, o ILCP vai manter parceria e apoio constantes aos movimentos sociais, principalmente à luta pela reforma agrária, como instrumento fundamental para promover a inclusão social, através da maior riqueza e patrimônio desta nação e do seu povo: a terra. No mais, fica a nossa convicção de que a conduta e o exemplo de Prestes servem à história deste país como referências permanentes para a construção de um Brasil bem melhor no futuro. Seu exemplo de dedicação inabalável e intransigente, na causa de uma sociedade mais justa foi o maior legado que devemos transmitir às atuais e futuras gerações. Essa é a nossa grande responsabilidade! Suas idéias não morrerão jamais! Continuarão em cada um que faça da dedicação integral ao ser humano a verdadeira razão de sua existência, para a efetiva colaboração na construção de uma sociedade e mundo mais justos e melhores! Prestes vive! Viva Prestes! |
quarta-feira, 10 de março de 2010
PRESTES VIVE!
Grupo encena peça de rua sobre Marighella nesta sexta (12/03)
terça-feira, 9 de março de 2010
8 de março: dia internacional DE LUTA das mulheres
|
domingo, 7 de março de 2010
sábado, 6 de março de 2010
Já trabalham os médicos cubanos no Chile
Inauguración hospital cubano en Rancagua. Foto: Diario El Pulso, de Chile El conjunto de carpas de emergencia, que albergan los equipos médicos y a 27 profesionales de Cuba, denominado Hospital No. 16 Henry Reeve, fue visitado por el ministro de Salud, Álvaro Erazo, el alcalde Eduardo Soto, la embajadora de la isla, Ileana Díaz Arguelles, y otras autoridades. Erazo agradeció el apoyo al esfuerzo nacional por enfrentar los efectos del sismo de 8,8 grados Richter y explicó que el número 16 se debe a que en la región de O Higgins, cuya capital es Rancagua, 90 kilómetros al sur de Santiago, existen 15 hospitales y ahora el cubano también quedó incorporado a su red asistencial. Varias de esas instalaciones, incluido el Hospital Regional de Rancagua, sufrieron daños de distintos grados durante el sismo, por lo que este y otros hospitales de campaña contribuirán a la atención médica de los lesionados y enfermos, dijo a Prensa Latina el doctor Marcelo Yévenes, director del Servicio Regional de Salud. Según las más recientes informaciones, 60 mil personas quedaron damnificadas en Rancagua. El doctor Juan Pablo Andux, jefe de la brigada cubana, relató a su vez el origen del nombre Henry Reeve, contingente médico especializado en situaciones de desastres y graves epidemias, con experiencia en emergencias en Pakistán, Indonesia, El Salvador, China, Perú, México, Bolivia y Guatemala y otros países. Estamos aquí para aportar asistencia médica al pueblo chileno, prestos a trabajar en cualquier circunstancia, las horas que sea necesario, de modo humanitario y desinteresado, subrayó Andux. El ministro agradeció la disposición técnica y humana de los cubanos desde el primer minuto, con plena solidaridad y espíritu de cuerpo, que es lo que necesitamos ahora para darle tranquilidad a la población . Un especial reconocimiento a la solidaridad y a la labor del gobierno y de los profesionales de Cuba, agregó. Durante el recorrido por el hospital, al que ya acudieron los primeros pacientes, la embajadora Díaz Arguelles reiteró la disposición de su país de colaborar en lo que disponga el gobierno a raíz del actual desastre. Tras recordar que médicos de la Mayor de las Antillas también vinieron a Chile durante un gran terremoto en 1960, dijo asimismo que la solidaridad entre ambas naciones se fortalece a través de estas acciones concretas, prácticas y efectivas. Otra autoridad presente en la inauguración del hospital cubano, instalado en el Complejo Deportivo Patricio Mekis de Rancagua, fue Rubén Torres, directivo de la Organización Panamericana de la Salud (OPS), quien destacó la solidaridad entre los pueblos de las Américas y, como siempre, puntualizó, Cuba está entre los primeros que hace su aporte en este caso. Al resaltar el rápido apoyo para enfrentar la catástrofe, Torres dijo a Prensa Latina que "la calidez humana de los equipos de trabajo son tan o más importantes que el propio equipamiento que los hospitales puedan tener. El hospital, con un potencial de 20 camas, cuenta con 11 médicos especialistas en medicina general integral, terapia intensiva, cirugía, ortopedia, medicina interna y anestesia, así como con enfermeras intensivistas, instrumentistas, circulantes, técnicos de rayos X, farmacia, electromedicina y banco de sangre. Leia mais Cubadebate |
Sentença da Corte Constitucional, contundente derrota para as intenções de violar a constituição
O Partido Comunista Colombiano, integrante do Pólo Democrático Alternativo, saúda com grande satisfação o pronunciamento final da Corte Constitucional sobre os vícios de inexequibilidade que continha o projeto de referendo que intentava assegurar a permanência no poder do presidente Álvaro Uribe através de inumeráveis manobras e atos viciados que pretenderam desrespeitar as leis vigentes e a própria Constituição da República. Sem dúvida, se trata de um fato histórico que se antepõe ao apetites pessoais e ao desejos de controlar sem limitação alguma todas as instâncias do poder, os preceitos do respeito à legalidade e ao acordo social que encarna a Constituição de 1991, incluídos os mecanismos de contrapeso e a independência dos poderes públicos, indispensáveis para a administração equilibrada do Estado.
Consideramos que no campo puramente político, se trata da mais clara e decidida derrota da forças que levaram o país a uma de suas mais profundas crises, refletida nos abismais desequilíbrios sociais hoje presentes na sociedade colombiana, nas imoralidades que conduzem boa parte das decisões governamentais, na associação de um setor importante do stableshment com grupos criminosos que não só assaltam de maneira gravíssima os cofres estatais como provocam um das maiores tragédias humanitárias da história, ao levar ao deslocamento forçado de milhões de compatriotas.
O Partido Comunista Colombiano chama os setores democráticos, as forças políticas que ainda não se contaminaram com o narco-paramilitarismo e todos os colombianos e colombianas que acreditam no possibilidade de uma saída política à gravíssima encruzilhada em que se encontra a Colômbia, para respaldar a Corte Constitucional, que se converteu num bastião importante em defesa do que nos resta de democracia e da garantia dos direitos do povo colombiano. Hoje mais que nunca, consideramos que a mudança democrática é possível e que as portas estão abertas para procurar uma sociedade justa e transparente.
Convidamos os democratas a fortalecer o Pólo Democrático Alternativo e os processos unitários para impedir qualquer saída forçada e buscar as convergências necessárias para alcançar as reivindicações sociais das maiorias populares, as mudanças democráticas e a paz com justiça social, negada por um regime contrário à salvação do país.
PARTIDO COMUNISTA COLOMBIANO Bogotá, fevereiro de 2010
|
"É triste estarmos falando em lulismo" - Entrevista com Mauro Iasi (de Renato Godoy de Toledo)
Brasil de Fato - edição 365 - de 25 de fevereiro a 3 de março de 2010 Mauro Iasi, historiador, é fundador do PT é, atualmente, membro da Comissão Política Nacional do Partido Comunista Brasileiro (PCB) Em 1980, o senhor acreditava que o partido tornaria-se o mais importante do país em 30 anos? Se sim, imaginava que seria dessa forma? Mauro Iasi - No contexto de 1980, nos preocupávamos menos com a "importância" do partido que estava nascendo e mais com a necessidade de expressão política dos setores explorados pelo capitalismo, como dizia o manifesto de fundação do PT. O PT, hoje, é um dos principais e um dos maiores partidos do cenário político brasileiro, no entanto, o preço pago para atingir tal dimensão foi, em grande medida, o abandono dos princípios e metas políticas que estavam presentes em sua origem. Como o PT conseguiu tornar-se hegemônico eleitoralmente entre os mais pobres?
Sempre foi um objetivo do PT organizar e representar politicamente os trabalhadores, que inclui a grande maioria dos setores mais pobres e mesmo os chamados setores médios. A inflexão política do PT em direção aos setores médios coincide com sua opção institucional e eleitoral nos limites da ordem burguesa. Hoje, o PT é um partido de centro-esquerda com um programa e uma ação política que podemos considerar pequeno-burguesa. Seu respaldo em amplos setores dos trabalhadores representa mais uma hegemonia passiva do que de fato uma organização independente que colocaria os trabalhadores na cena política na defesa de seus interesses de classe. O apoio, eleitoral e midiático, dos setores mais empobrecidos deve-se a uma mescla de assistencialismo e características carismáticas que emanam da liderança de Lula, acima do partido e muitas vezes contra ele. O PT esperava colocar a classe trabalhadora com independência e autonomia no cenário político e de fato não é isso que vemos. O eventual governo Dilma Rousseff pode postar-se à esquerda da gestão Lula?
Não creio que Dilma represente nenhum movimento mais à esquerda do que o perfil de centro-direita que caracteriza o governo Lula, de fato fundado em uma governabilidade conservadora que inclui alianças com empresariado, agronegócio e interesses financeiros. As alianças anunciadas na candidatura Dilma aprofundam a dependência de legendas conservadoras como o PMDB e a necessidade de manter pactos com os setores empresariais.
Em nenhum momento a pré-candidata acenou com alianças e propostas aos movimentos sociais e aos setores de esquerda. Como participante de destaque no atual governo, a ministra nunca se posicionou mais à esquerda, em nenhuma das questões de destaque, na condução da política econômica, no caráter do chamado PAC [Plano de Aceleração do Crescimento], na relação com os movimentos sociais ou, que seja, na mera explicitação de qualquer divergência com os rumos do governo Lula. Pelo contrário, ela tem sido um porta-voz fiel da atual linha e nada indica que irá ser diferente em um possível governo seu. O senhor acredita na tese de que o Brasil pode viver nos próximos anos um "lulismo sem Lula"?
É muito triste que a experiência política do PT tenha chegado ao ponto de estarmos falando em "lulismo". Um partido que surgiu para inovar o fazer político e colocar em cena os trabalhadores não apenas não rompeu com a forma conservadora de fazer política - com o presidencialismo de coalizão e a relação fisiológica com o Congresso e suas legendas de aluguel - como reapresenta o que há de mais retrógrado na história política brasileira: a liderança pessoal que age sobre as massas sem a mediação política de partidos e propostas fundadas nos reais interesses da classe que se diz representar.
Essa forma política foi a que permitiu a Getúlio Vargas impor com o apoio dos trabalhadores uma político contrária aos trabalhadores. Infelizmente, é o que vemos hoje. O projeto de Lula é um projeto pessoal - voltar em 2014. Para ele, é melhor um governo como de Dilma, que não faça sombra e apenas prepare sua volta, do que uma alternância com a oposição tucana. Mas isso nada tem a ver com projetos societários e rumos para o Brasil. Vivemos uma hegemonia conservadora que se caracteriza pela concordância sobre o que é essencial aos interesses do grande capital e da acumulação capitalista em nosso país. O "lulismo" ou o "popululismo", se preferirem, é apenas um meio para manter esses interesses conservadores com menos custos e evitar mudanças estruturais mais profundas que viessem atender aos reais interesses dos trabalhadores. (RGT) |
quinta-feira, 4 de março de 2010
quarta-feira, 3 de março de 2010
PARA ONDE VAI A ARGÉLIA? - Por: Miguel Urbano Rodrigues
O fascínio que Argel exerce há séculos sobre os estrangeiros que ali chegam é inseparável do cenário.
O casario, predominantemente branco, sobe pelas encostas que a encerram em gigantesca taça, moldura de uma baía deslumbrante, apenas superada em grandeza pela Guanabara e Nápoles.
O Colóquio Internacional de Homenagem a Georges Labica proporcionou-me em Fevereiro o reencontro com a cidade, por onde tinha passado em 1953 quando a Argélia era ainda uma colónia mascarada de parcela da França.
Dessa breve visita guardava na memória imagens de uma cidade onde a grande maioria dos moradores era de origem francesa. Recordo ter percorrido então a Casbah, o núcleo urbano anterior à conquista onde residiam muitas dezenas de milhares de muçulmanos, definidos como indígenas pela administração colonial. Achei a Casbah actual quase irreconhecível.
Agora Argel é uma cidade muçulmana onde os europeus são uma minoria insignificante. Na Casbah não há gendarmes nem bandeiras francesas, o árabe substituiu a língua de Voltaire como idioma nacional, mas a modernidade aparente da era da globalização impõe-se nos ruídos das ruas, nas cores de cartazes publicitários, e no desaparecimento do vestuário tradicional. Declarada património da humanidade, a cidade velha não se assemelha a qualquer outra do Islão. Nos 45 hectares que restam da antiga capital amuralhada da época da conquista, concentram-se 1200 casas, labirinto de ruelas, becos, escadas tortuosas, numa malha urbana onde se destacam mesquitas e palácios do período da dominação turca, santuários, museus, um medersa (universidade corânica) e minúsculas lojas.
Com alguma surpresa, recordando cidades asiáticas do Islão como a antiga Cabul, achei a Casbah limpa. Percorrendo o dédalo das suas ruas, a minha imaginação viajou pelo tempo. Revivi a gesta da resistência de 18 anos do emir Abdel Kader à invasão francesa de 1830 e, com emoção, a luta travada na Casbah pelos patriotas da FLN contra os paraquedistas de Massu, imortalizada em «A Batalha de Argel», o filme de Pontecorvo.
Pisando aquele solo milenar, com o olhar descendo para o mar azul das escarpas nuas que fecham o horizonte, subiu em mim naquela tarde fria um sentimento de respeito e admiração pelos povos da Argélia que ao longo de 20 séculos se bateram com heroísmo contra todos os invasores desde Roma à ocupação francesa.
UM PAÍS MILITARIZADO
As Forças Armadas Argelinas, avaliadas em 180 000 homens (as mulheres são escassas no exercito), constituem hoje talvez o corpo militar mais numeroso no Continente africano, superando as do Egipto. Esse gigantismo não resulta de qualquer ameaça externa previsível. O exército cresceu como resposta do Estado à onda de violência desencadeada na sociedade argelina pela Frente Islâmica de Salvação – FIS. Não cabe neste artigo comentar a situação criada pelo desafio do radicalismo islamista ao Poder detido pelos herdeiros do movimento que dirigira a luta pela independência nacional.
Registo somente que a mensagem do FIS encontrou de início receptividade entre as camadas mais desfavorecidas de uma população misérrima, que perdera a esperança suscitada pela independência e as promessas do «socialismo argelino». Enquanto a população do país quadruplicou desde meados do século passado – hoje supera os 30 milhões – a anunciada revolução não se concretizou e o êxodo total da população europeia provocou o desmoronamento do sistema económico preexistente.
A anulação das eleições ganhas pelo FIS, que se beneficiava do descontentamento geral, traduziu-se numa vaga de violência irracional (150 000 mortos e centenas de milhares de exilados). O Grande Medo contribuiu decisivamente para a perda de popularidade da organização.
A resposta do Estado foi a militarização do país.
Argel é hoje uma cidade muito mais «segura» do que a maioria das capitais da América Latina. A FIS foi militarmente esmagada. Mas o preço social da derrota infligida à organização islamista foi muito alto. A densidade do policiamento e a visibilidade do dispositivo militar impressionam o forasteiro.
Às seis da tarde não se encontra uma mulher nas praças e ruas do centro; às oito, a cidade, deserta, parece adormecida. A vida nocturna é praticamente inexistente.
O contraste com o dia perturba o visitante porque a grande metrópole (talvez uns três milhões com os subúrbios, mas as estatísticas argelinas não inspiram muita confiança ) é um formigueiro de gente desde a manhã ao pôr-do-sol. Na própria Residência oficial onde se realizou o Colóquio Labica, reservada aos participantes e convidados, não se podia entrar sem passagem por um detector de metais similar ao dos aeroportos.
Um cordão de militares cerca a capital à noite. Mas nas três vezes que saímos para jantar em restaurantes do centro, distante meia dúzia de quilómetros dos bairros altos, os carros oficiais em que seguíamos foram submetidos a numerosos controlos em postos militares. Com os táxis, a inspecção é mais rigorosa.
UMA ECONOMIA FRÁGIL
Durante a nossa breve permanência em Argel, a minha companheira e eu tivemos a oportunidade de manter prolongados encontros com velhos combatentes da guerra de independência. Essas conversas proporcionaram-me uma informação importante, embora superficial sobre a conjuntura argelina, tal como a sentem e vivem intelectuais revolucionários distanciados do Poder.
Falei também com jornalistas que esboçaram um panorama da comunicação social.
Uma realidade indesmentível: a dependência da Argélia dos combustíveis é preocupante. O petróleo e o gás fornecem, segundo as estatísticas oficiais, quase 98% das exportações do país e representam 40% do Produto Interno Bruto. As reservas comprovadas garantem a extracção no nível actual até 2030, o que suscita inquietação quanto ao futuro de uma sociedade na qual o sector produtivo é de uma insuficiência transparente.
A agricultura atravessa uma crise profunda, agravada pela política neoliberal ortodoxa imposta no início dos anos 90. Um punhado de multimilionários monopoliza as importações de cereais, leite e carne, com a cumplicidade de personalidades destacadas do Exército. A consequência dessa estratégia foi desastrosa para os produtores nacionais, incapazes de suportar a concorrência dos preços internacionais. Aliás, as cooperativas estatais formadas após a independência não puderam corresponder às esperanças nelas depositadas por falta de apoio do Poder central.
Essa grande burguesia , que acumulou fortunas colossais, possui casas no estrangeiro, onde passa largas temporadas . Não se conhece o nível das suas contas em bancos suíços, mas é certamente elevadíssimo. Num patamar inferior, formou-se uma burguesia prospera , enriquecida também através de negócios escuros.
Mas muitos milhões de argelinos vivem abaixo do nível da pobreza.
A crise económica e social assumiu tamanhas proporções que o governo sentiu a necessidade de reconhecer o fracasso da chamada economia de mercado cuja apologia fizera durante anos. No seu discurso de Junho de 2008, o Presidente Bouteflika anunciou uma viragem de estratégia. Mas a condenação da política neoliberal não foi acompanhada da formulação de uma alternativa. Não basta reconhecer que as transnacionais que tinham prometido realizar investimentos grandiosos trataram de saquear o país, tripudiando sobre os compromissos assumidos. A nova lei de finanças suprimiu os privilégios de que gozava o capital estrangeiro; mas o Poder não elaborou um projecto nacional.
O Presidente Boumedienne, após o golpe que derrubou Ben Bella, ainda utilizou durante algum tempo a expressão «socialismo argelino». Mas a fórmula, retórica, não travou a marcha do país rumo a um capitalismo dependente. A indústria metalúrgica, que gerou esperanças graças a uma siderurgia nacional que viabilizou a produção de tractores e a montagem de veículos de transporte, é hoje pouco mais do que uma recordação.
O PIB per capita não excede 2300 dólares.
A Argélia é territorialmente um gigante com mais de 2.350.000 quilómetros quadrados (grande parte no Deserto do Sahara, onde se concentram o petróleo e o gás). Mas enormes extensões de terras férteis permanecem incultas.
TEMOR DO FUTURO
Uma implantação débil da Internet facilita a compreensão de um absurdo aparente: as grandes tiragens dos jornais argelinos num Continente onde se lê pouquíssimo. O maior diário do país, em língua árabe, tem uma tiragem que ronda os 400.000 exemplares. O principal dos diários de língua francesa atinge os 80.000. Oficialmente não existe censura. Mas jornalistas com quem falei disseram-me que a auto-censura é rotineira na maioria das redacções.
Como a corrupção é considerada um flagelo nacional, os editoriais e reportagens sobre grandes escândalos são tolerados e por vezes incentivados. Mas desde que neles não seja transparente o envolvimento de altas personalidades das Forças Armadas. Oficialmente ,estas apresentam-se unidas no apoio ao regime. Mas a realidade desmente a imagem difundida . No corpo de oficiais , mesmo nos escalões superiores, manifestam-se tendências contraditórias quanto ao rumo do país.
Na área internacional a imprensa é anti sionista e, com o apoio oficial, solidária com a luta dos povos da Palestina e do Líbano. O Hamas e o Hezbollah não são satanizados, ao contrário do que ocorre noutros países muçulmanos. As críticas às guerras de agressão dos EUA no Iraque e no Afeganistão e às campanhas contra o Irão são aliás frequentes.
Mas no tocante às relações internacionais do governo Bouteflika as surpresas são muitas para o visitante desconhecedor dos meandros sinuosos da estratégia do Poder.
A economia está orientada para a União Europeia (aproximadamente 60 % do comercio externo), mas o alto comando do Exército aprofunda a cooperação militar com a China e mantêm relações cordiais com Washington. É inquietante que a CIA tenha sido autorizada a funcionar discretamente em Argel. O governo Obama, invocando a necessidade de «combater o terrorismo» no Continente iniciou negociações –segundo a revista web de Michel Collon- tendentes à utilização pelos EUA da nova base militar instalada em Tamanrasset, no extremo sul.
Com o governo de Sarkozy as relações são hoje marcadas por uma tensão inocultável. A França foi forçada pela luta do povo argelino a aceitar a independência do país. Mas os seus sucessivos governos nunca assumiram uma atitude responsável no relacionamento com a Republica da Argélia. Não somente recusaram sempre debater a legitimidade de reparações materiais ao povo da sua antiga colónia ( centenas de milhares de argelinos foram mortos durante os oito anos da guerra que provocou enormes destruições materiais) como , sobretudo desde que Sarkozy chegou à Presidência , insistem em reescrever a Historia, apresentando a colonização como globalmente positiva.
UM GOVERNO DESPRESTIGIADO
A FLN, o partido do governo, é hoje uma caricatura do movimento de libertação que dirigiu a luta pela independência numa guerra de oito anos. Como não dispõe de uma base eleitoral que lhe garanta maioria no Parlamento montou uma heterogénea coligação, a Aliança Presidencial. Os seus parceiros são a União Nacional Democrática (RND), um partido de tecnocratas cuja bandeira é a modernização do país, e o Movimento Social Popular (ex-Hamas), organização populista.
A ideologia está ausente da teoria e da prática da Aliança e do governo por ela apoiado.
O Presidente Bouteflika mantem-se no poder pela inexistência de uma alternativa a curto prazo. Mas perdeu o escasso prestígio que tinha ao ser eleito em 1999. Na opinião de observadores internacionais o FIS, não obstante inspirar hoje mais temor e repulsa do que simpatia, venceria as próximas eleições se elas fossem normais. Seria essa uma forma de castigar Bouteflika e os seus aliados.
Para se avaliar a complexidade da reacção popular perante o Poder e aqueles que para o enfrentar optaram por uma orgia de violência é útil esclarecer que o analfabetismo real na Argélia deve rondar os 50% ,o que desmente as estatísticas oficiais. O fosso que separa uma intelectualidade brilhante (na Universidade o francês predomina sobre o árabe) e as massas é muito profundo.
Mas é importante registar que houve un enorme progresso no campo da Educação. Antes da independência apenas umas centenas de argelinos tinham acesso ao ensino universitário, reservado quase exclusivamente a europeus. Hoje, o total de estudantes nas numerosas universidades existentes ultrapassa os 250 000 . Lamentavelmente, o diploma , concluídos os cursos, não assegura trabalho a dezenas de milhares, cuja frustração é legitima.
Os sindicatos são hoje de pura fachada, e o desemprego, elevadíssimo, dificulta a luta dos trabalhadores cuja combatividade é escassa pela ausência de uma organização revolucionária com implantação entre a classe operária , capaz de a mobilizar em defesa dos seus direitos , uma organização que pudesse desempenhar o papel assumido durante a guerra pelo Partido Comunista Argelino.
Num país onde o salário mínimo equivale a 150 euros, e o médio oscila entre os 250 e os 300, o custo de vida é comparável ao de Portugal com a peculiaridade de os hotéis e os restaurantes serem caríssimos.
Para onde caminha a Argélia?
Não me sinto em condições de esboçar uma resposta.
Nos meus breves dias de Argel encontrei-me me num país desconhecido que perdeu a grande esperança que mobilizou a nação numa guerra de libertação épica.
A juventude actual nasceu após a guerra da independência , tal como a geração anterior. Sente uma enorme frustração pela ausência de perspectivas. Um veterano do combate dos anos 50 dizia-me ,com tristeza: « Milhares de jovens emigram todos os anos ,principalmente para a França e o Quebec, no Canadá. Acredito que se não fosse a extrema dificuldade de obtenção de vistos para entrar na Europa e na América, nove entre cada dez jovens argelinos, deixariam o país».
O futuro próximo parece sombrio. Mas a história heróica dos povos da Argélia demarca-me de uma atitude pessimista. Conheci ali neste reencontro homens cuja lucidez e firmeza reforçaram a minha confiança no amanhã da terra milenarmente martirizada da Argélia, berço de grandes pensadores e sábios e de revolucionários que se impuseram ao respeito da humanidade.
Serpa, Fevereiro de 2010 |
terça-feira, 2 de março de 2010
Nova greve geral de 24 horas na Grécia - A imprensa burguesa escondeu estas notícias



por KKE (Partido Comunista Grego)A nova greve de 24 horas, deflagrada em 24 de Fevereiro contra os planos do governo social-democrata do PASOK para colocar o fardo da crise capitalista sobre os ombros dos trabalhadores, obteve um grande êxito. Milhões de trabalhadores resistiram à intimidação dos partidos do capital (o social-democrata PASOK, o conservador ND, e o extrema-direita, racista LAOS), os quais argumentam que os trabalhadores devem submeter-se para que se "resgate o país da falência". O "patriotismo" dessas forças políticas tem somente um objectivo: manter e expandir o lucro do capital as expensas dos ganhos dos trabalhadores através do aumento das idades para a aposentadoria, corte de salários e pensões, com o posterior desmonte do sistema de segurança social, deteriorando as relações de trabalho e aumentando impostos contra o povo. PARTICIPARAM 70 CIDADES Ao mesmo tempo a vasta maioria do povo trabalhador foi mobilizada e participou das actividades de massa organizadas pelo PAME (Frente Militante de Todos os Trabalhadores), a aliança classista orientou os sindicatos na Grécia. PAME organizou federações de trabalhadores da indústria, Centros de Trabalho (organizações sindicais regionais), como também o fez com centenas de sindicatos de base. Em consequência, a maioria dos trabalhadores demonstrou sua aversão às federações sindicais comprometidas do sector privado (GSEE) e do sector público que – justamente como o governo do PASOK faz – afirmam que "jogos especulativos" contra a Grécia são o maior problema deste país. Em verdade, a especulação é simplesmente um resultado e aspecto da decadência do sistema capitalista e demonstração das contradições intra-imperialistas entre o Euro e o Dólar. A vasta maioria do povo trabalhador que participou das demonstrações do PAME em 70 cidades demonstrou que ela apoia de confrontação geral coma burguesia, linha essa promovida pela PAME, que exige que a plutocracia pague pela crise e luta contra a União Europeia, a frente unida capitalista contra o povo e suas medidas contra os direitos trabalhistas, a fim de alimentar a luta para a derrocada do poder do capital. BLOQUEIO DA BOLSA DE VALORES DE ATENAS A PAME preparou esta greve, visitando centenas de locais de trabalho, discutindo com os trabalhadores sobre a necessidade da luta e preparação desta batalha em todos os níveis. A esta altura, devemos mencionar o encontro organizado em Atenas pelo Secretariado de Imigrantes da PAME. Nessa reunião, compareceram imigrantes de todo o mundo que vivem e trabalham na Grécia e aderiram às aCções da PAME. Os comunistas desempenharam um papel significativo na organização desta greve através da campanha política que o Partido Comunista Grego travou nos locais de trabalho, revelando os objectivos reais do governo e chamando o povo trabalhador à luta contra aquelas medidas. Na véspera da greve, o Gabinete de Imprensa do CC do Partido Comunista Grego enfatizou, entre outros: "O governo, a União Europeia e a plutocracia já disseram o suficiente. Se essas medidas bárbaras serão ou não aprovadas depende também da postura e das acções do povo trabalhador. Por esse motivo, o Partido Comunista Grego conclama todos os trabalhadores, independentemente de partido em que tenha votado nas eleições, a assumirem uma posição classista patriótica através da participação na greve e nos eventos de massa da PAME. Conclama os trabalhadores a desafiar a manipulação e intimidação dos empregadores. A luta e o sacrifício de nossa classe, o presente e o futuro da classe trabalhadora exigem que se posicionem e lutem; não para desistir dos recentes direitos populares como exigido pelas necessidades do capitalista do lucro e da competitividade. Além disso, o Partido Comunista Grego colou cartazes e organizou demonstrações nas vizinhanças de Atenas e em outras cidades por todo o país encorajando o povo trabalhador a unir-se à luta. O bloqueio do edifício da bolsa de valores de Atenas pelas forças da PAME desempenhou um papel significativo na propagação e no sucesso da greve. Em 23 de Fevereiro, às 6h30 da manhã as forças da PAME bloquearam as três entradas do prédio da Bolsa, símbolo da pilhagem do povo trabalhador, dos seus fundos de pensão e da sua riqueza por um punhado de capitalistas. "A plutocracia deve pagar a crise" foi o slogan da propaganda da PAME. Ao mesmo tempo, cartazes revelavam: "Aqui está o dinheiro: os depósitos das empresas, em 2004, foram: 36 mil milhões de euros; em 2009, 136 mil milhões de euros. 250 mil trabalhadores recebem um salário de 740 euros. Ao mesmo tempo, 700 mil milhões de euros estão nos bolsos das grandes empresas. O PASOK e o ND encheram os bolsos dos banqueiros com quantias que vão de 233 a 759 mil milhões de euros". No dia da greve milhares de trabalhadores e estudantes juntaram-se aos piquetes da PAME nas portas das fábricas e outros locais de trabalho. MANIFESTAÇÕES DE MASSA EM ATENAS Milhares de fábricas e empresas, locais de construção, escolas, portos e aeroportos e toda actividade produtiva foram congelados. A participação da massa na greve e as manifestações da PAME deram uma resposta vigorosa ao governo e à União Europeia. Foram criadas melhores condições para o surgimento de um contra-ataque dinâmico dos trabalhadores e do povo que evitará aquelas medidas bárbaras e a derrocada final da política anti-povo. Em Atenas, a manifestação de massa ocorreu na praça Omonia, no centro da cidade. O presidente da federação dos sindicatos dos gráficos, Iannis Tolis, em seu discurso no comício, enfatizou: "As forças do capital e seus representantes políticos entendem que, quanto mais chantagearem e intimidarem os trabalhadores, quanto mais tentarem iludi-los e colocar novos encargos sobre eles, mais ódio e indignação causam. Elas temem a perspectiva de um levantamento geral dos trabalhadores e, por esse motivo, o governo e o patronato, a oposição, o ND e a UE, bem como seus instrumentos e os partidos do caminho único na UE, criaram uma frente conjunta. Eles estão errados se acreditam que podem manipular a vontade dos povos, quando este está no caminho da luta de classe. A História provou que, quando o rio flui não pode refazer o seu curso". Representantes dos imigrantes e da Frente de Luta dos Estudantes (MAS) apresentaram saudações na mobilização. Do comício também participou uma delegação do CC do Partido Comunista Grego liderada pelo secretário do partido, Aleka Papariga, que declarou: "Os trabalhadores deve superar o medo e o fatalismo. Eles devem intimidar o inimigo e não cair na armadilha da escolha entre a União Europeia e os EUA como pretende o primeiro-ministro, Sr. Papandreu". A seguir, os manifestantes marcharam até o Parlamento Grego. Ver também: http://resistir.info/grecia/greve_10fev10.html O original encontra-se em http://inter.kke.gr/News/2010news/2010-02-generalstrike Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ . |








